No alto, Nalon segura um sapato feito a partir da fôrma de Primo Carnera, lutador que calçava 52; acima, a caixa que guarda as fôrmas de FHC
O homem de 800 pés


Renzo Nalon guarda mais de 400 pares de moldes de pés de clientes de sua grife, a Pellegrino, que fabrica calçados sob medida. Entre eles há pés ilustres, como os de FHC


Por Sandra Soares, da Redação AOL


Renzo Nalon vive pegando no pé de Fernando Henrique Cardoso. Não é raro que um cliente mais bem informado entre na Pellegrini, a sapataria da qual ele é dono e FHC freguês, e peça para ver as fôrmas de madeira de tamanho 41 usadas para fabricar os sapatos do ex-presidente.


Na centenária Pellegrini, os sapatos são feitos à mão, sob medida, e montados numa fôrma individual que reproduz até mesmo os calos e joanetes do pé contratante. Não é o caso de FHC; as bases do ex-chefe da Nação são irretocáveis. "Ele tem os dois pés saudáveis e exatamente iguais, com altura e largura 42,5", diz Nalon. "E o Covas tinha as mesmas medidas. Os pés dele eram tão parecidos com os do Fernando Henrique que eu até poderia trocar as fôrmas na hora de fazer os sapatos."

O depósito de Nalon guarda mais de 400 fôrmas – de gente que, para colocar um pellegrini no pé, se dispõe a abrir mão de no mínimo R$ 380. Dependendo do material escolhido para a confecção do sapato (a Pellegrini só trabalha com couros nobres e importados) o custo pode chegar a R$ 700. "Vale a pena", garante Nalon. "A durabilidade média é de 10 anos e oferecemos toda a assistência para a manutenção da peça."

Quem faz um Pellegrini geralmente volta para fazer mais. Foi assim com Almir Pazzianoto, ex-ministro do Tribunal Superior do Trabalho, outro cliente célebre da loja cujos pés não dão muito trabalho (aliás, os dele estão entre "os mais perfeitos" que Nalon já viu). Políticos costumam dar bons pés. Já os atletas....

Éder Aleixo tem os pés tortíssimos e está na "lista dos piores" da Pellegrini, ao lado de Sócrates. "O centro da planta dos pés do Sócrates é curvo, muito curvo, forma um túnel entre a ponta e o calcanhar", conta Nalon. "Por isso é que ele parecia uma gazela quando corria pelos campos de futebol! E tem mais: ele calça 41 mas devia calçar pelo menos 43 porque, afinal, mede 1m90."


Nalon calçou Sócrates e todos os membros da Seleção e da comissão técnica que disputaram as Copas do Mundo de 1982 e 1986. Para tornar a vida do então jogador mais confortável, colocou enchimento dentro dos sapatos dele "de forma a preencher o túnel". E garante que a Alpargatas, que fabricou as chuteiras da equipe, fez o mesmo.


Mas entre os pés de atleta que já pisaram na Pellegrini, ninguém superou ainda os de Primo Carnera, um lutador de boxe italiano famoso nos anos 40, tamanho 52. Primo era primo de um funcionário da sapataria e por isso conseguia que enviassem a ele, na Europa, os "sapatinhos" feitos sob medida no Brasil.


"Os dedos dele pareciam bananas-nanica de tão grandes. Quando eu era criança o Primo veio ao País e visitou a loja. Fiquei impressionado", lembra Nalon, que ainda guarda na loja a fôrma gigante do lutador e um sapatão feito a partir dela.